A Cerveja da Penha e a Cervejaria D'O Corvo

Gabriel Marques - Ruas e tradições de São Paulo

         Em 1840, dentre os grandes passeios que se podia fazer de bonde em são Paulo, uma boa excursão era tomar o bonde até o Marco da Meia Légua, na estrada da Penha no atual bairro do Belenzinho. Um recanto campestre do interior, com ar puro e muito sossego.

         Havia por lá chácaras e à margem da estrada que vinha ter no Santuário da Penha, havia uma importante fábrica de cerveja, construída numa grande chácara por um alemão pacato e bonachão, o João Bohemer.

         A fábrica de cerveja, tinha um grande e frondoso caramanchão franqueado à sua freguesia por sinal bem numerosa.

         A primeira cerveja fabricada na província de São Paulo foi a cerveja do alemão e chamava-se "Cerveja da Penha”, pitorescamente denominada “marca barbante”, era assim chamada, devido o respectivo arrolhamento ser mantido com amarrilho de barbante em contraste com o das boas marcas importadas da Alemanha – Franziskaner, Lowembrau, Viena, Pilsen, Spaten (Pá) e outras mais – artisticamente mantidas a fino arame trançado. Estas sendo especialidades custavam caro: vendidas na praça por um preço exorbitante de 1$000 a 1$500 Réis inclusive a garrafa. Coisa só para rico...

         A “barbante”, caipira como era, oscilava de 200 a 300 Réis apenas o conteúdo, um preço razoável considerando-se que a passagem do bonde custava 200 Réis. Mas não pensem que a cerveja era uma maravilha, era uma garapa azeda como o quê! A turma bebia porque não havia outro jeito. Ou bebia-se Gengibirra (fermentação de água, gengibre e açúcar mascavo) ou bebiam-se as cervejas importadas.

         No início, essa cerveja era apreciada apenas pelos penhenses. Depois, o alemão Henrique Schomburg passou a comercializá-la no Bar “O Corvo” no centro de São Paulo.

         O bar era na velha Rua do Governador. Esta rua é antiqüíssima, é tão antiga quanto o Largo do Capim, hoje Largo do Ouvidor. Mas, já no século XVIII essa rua teve seu nome mudado para o de Rua do Ouvidor. Isso se dera por ter nela passado a residir o primeiro Ouvidor nomeado para São Paulo. Pode-se mesmo dizer que ambos, rua e largo, nasceram com São Paulo do Campo. Nenhuma casa nela havia que se destacasse do nível comum das habitações paulistanas. Dentre todas, porem, uma se agigantava, se não pelo aspecto externo, então pelo que lhe ia por dentro. Sim, porque em seu interior se ocultavam, alem do mais, três perfeitas maravilhas paulistanas, todas inteirinhas de carne e osso - as filhas do proprietário.

         Essa casa, ainda que muito conhecida por gregos e troianos, gente da alta e da media esfera, tinha um bem curioso rótulo à porta: "CERVEJARIA D'O CORVO".

         O "Corvo" do Sr. Schomburg era até bem paulistano. Alegre, sem plumagem negra, sem tragédias na vida, sem gritos guturais, sem mistérios e sem nenhuma significação filosófica. Era um "corvo" sem pretensões, um "corvo" de mentira e que por isso podia figurar no "Sitio do Pica-pau Amarelo" do nosso saudoso Monteiro Lobato, pois que dentro da sua despretensiosa carcaça havia risos, e havia alegria de viver em vez de soturnos grasnidos. E mais: havia também moços e ve1hos, ricos e pobres, estudantes e fazendeiros, barões e sertanistas a beber copos e mais copos de excelente cerveja.

         São Paulo, naqueles idos, era o São Paulo da "Sereia Paulista", do "Stadt Coblenz", do botequim da "Nariz-de-Pau", da taverna do "Sapo Seco" e do "Hotel do Planet" onde o rapazio dado a folganças passava a rir e a brincar nas noites enluaradas. E havia cafés, alguns noturnos, como o "Café Europeu", situado na esquina do Largo do Tesouro com a Rua da Imperatriz que não carecia de portas porque passava aberto a noite toda. E o “Corvo" liderava o movimento das casas noturnas. Era ele o local por todos preferido. A todos atraia. A todos encantava. Escravistas ou não, sisudos homens da governança e estudantes, boêmios e professores circunspetos, todos, absolutamente todos, se compraziam em marcar encontros n”O Corvo”, em freqüentar “O Corvo". "O Corvo" era a cervejaria dos homens de bom gosto. E, principalmente, dos intelectuais da época. Ali ficavam eles até altas horas para os cavacos do dia, para as discussões inconseqüentes, para o forjamento de planos e até para o engatilhamento de trotes, coisa muito do gosto de todos. Seu proprietário - O alemão Henrique Schomburg - era quem atendia, com atenções envolventes, a freguesia de alto bordo. A cerveja lhe vinha da Penha, fabricada especialmente para o seu estabe1ecimento. Preparada com todos os ff e rr só podia mesmo agradar, como agradava. Tornou-se famosa. Sem igualha na Paulicéia. Pura e gostosa, como o diabo! Não havia por onde se lhe pegasse um só defeitinho, uma só falha, qualquer imperfeição! Nada! Satisfazia a todos. Absolutamente. Com isso, estava "O Corvo" sempre cheio, sempre transbordante de fregueses, principalmente à noite. Entrava-se no salão por uma porta constantemente aberta, rasgada num corredor ao lado do prédio. O corredor continuava. Estirava-se até ao quintal. Mas quem seria capaz de ir além do ponto estabelecido, se dois terríveis Cérberos, tais quais os da mitologia grega, ali atentamente guardavam a passagem?

         A família do rubicundo proprietário - pois o Sr. Henrique Schomburg era tão vermelho, tão vermelho que seu rosto lembrava um pimentão maduro... - morava na parte superior do prédio. O salão, de teto baixo, mostrava-se mal iluminado pelas chamas bruxuleantes de dois legítimos lampiões be1gas. Mas aquilo não passava de artimanha, de simples malícia• para tornar mais poético o ambiente. A freguesia, grande e constante, além de voraz consumidora da cerveja da Penha, era também voraz admiradora das três deidades que o proprietário d”O Corvo" avaramente escondia. Pai zeloso. Excessivamente. Mas eram moças realmente bonitas. Na verdade, muito bonitas. Formosas de enlouquecer qualquer príncipe encantado que pelo mundo procurasse noiva de be1eza invulgar.

         No entanto, e1as nunca sequer passavam pelo salão das cervejadas, mesmo que de raspão. Assim, quem quer que lhes queiram ver o formoso palminho de cara, que lá se fosse postar, sem espalhafato nem pressa, a porta da Matriz da Sé, em dia de missa solene. Quais anjos descidos do céu elas por lá passavam sempre elegantes e lindas! Caminhavam com ares de princesa, mas também - oh, tortura para os rapazes! - iam sempre seguidas pela mãe e protegidas pelo braço forte do pai...

         Entrementes, a freguesia aumentava no salão d''O Corvo". Os estudantes, os jornalistas, os poetas, os literatos e até os chamados caifases (gente que só cuidava da libertação dos escravos), tudo ali discutiam, tudo ali ventilavam, desde a filosofia de Aristóteles aos diz-que-diz malévolos da cidade. Dois ou três mocetões de avental de linho branco e sorriso parado serviam prontamente a freguesia, num vai-e-vem elástico de sombras.

         Pois eram assim alegres que ali dentro corriam as poéticas noites paulistanas.

         O rubro Sr. Schomburg só se abespinhava, deveras, quando a alegria dos mais extravagantes subia em ondas de sons dissonantes ate onde as princesinhas dormiam. "Não era tanto por ele" - explicava; "mas, o diabo, eram as filhas, que já estavam no berço!".

         E abria os braços, súplices:
        - Por favor, amigos! A família já está repousando!

         Aquele pedido era água na fervura. Subitamente o vozerio baixava de tom. As gargalhadas se apagavam, sem eco.

         Outra coisa que também muito o aborrecia eram os seresteiros, lá fora, com suas choramingas. Os violões soluçavam em seus bordões e a voz do Romeu de fanfreluche plangia, plangia, abemolada, perdendo-se, lá longe, dentro da noite morta...

                                Acorda amada, que a noite é bela,
                                Vem ouvir a voz do teu cantor!

         Ah, então, sim, era mesmo o diabo! O Sr. Henrique Schomburg se tornava mais vermelho. Seus olhos se escancelavam. Mas a educação o rapidamente o açaimava, alertando-o de que os fregueses não deviam perceber-lhe a zanga. Era feio. Que fazer, então? Fácil lhe era a solução. O Sr. Schomburg corria à porta e convidava, a entrar, o cantor e a caterva acompanhante...

        - Entrem rapazes! Entrem! A cerveja os espera! É de graça hoje! Não façam cerimônias!

         Realmente. O Sr. Schomburg nada deles cobrava. Só não queria saber daqueles cantares soluçantes. E também não admitia que lhe falassem nas filhas. Dispensava explicações e dispensava cantorias. Se o cantor fizesse questão fechada de cantar, que fosse cantar em outra freguesia...

         Era assim o Sr. Henrique Schomburg da querida "Cervejaria d’O Corvo"!