O Parque Antarctica

Condensação dos artigos "O Parque Antarctica I, II e III"
do álbum editado pela Companhia Antarctica Paulista,
em comemoração ao 4º Centenário de São Paulo.
Pinturas de Diógenes Duarte Paes e Pedro Alzaga.
Texto de Paulo C Florençano com pequenas atualizações.
Texto e imagens gentilmente cedidas por:
Revista Maturidade autora do www.Almanack Paulistano.nom.br

         A não ser o Jardim Botânico da Luz (primitivo nome do Jardim da Luz), que começou a ser construído em 1799 e foi inaugurado em 1825, até aos últimos trinta anos do século XIX, não havia, em São Paulo, outros parques ou jardins públicos.
         Os primeiros apareceram quando governava São Paulo João Teodoro Xavier (1872-1875). São do seu tempo o jardim da Ilha dos Amores, o do barranco do Carmo, a remodelação do largo Sete de Abril (praça da República), a reforma do Jardim da Luz. Depois, foram construídos: em 1879, o do largo do Teatro; em 1886; o do pátio do Colégio; em 1887, o do largo de São Bento; e, em 1897, o do largo dos Guaianases (atual praça Princesa Isabel).

        Com o desenvolvimento vertiginoso da cidade, mais acentuado nos primórdios do século atual, surgiu a necessidade de dotá-la de outros parques e jardins. E, foi a partir de então - diz o cronista - que a cidade pôde contar com parques, como o do Anhangabaú e o da várzea do Carmo, nas imediações do centro, e com o PARQUE ANTARCTICA e o do Museu do Ipiranga, nos arrabaldes. O Parque Antarctica ficava no distrito da Água Branca, e ocupava parte da área de vinte alqueires que, em 1891, a Companhia Antarctica Paulista, fundada, naquele ano, por um grupo de homens empreendedores, havia adquirido, para a instalação da sua grande fábrica de cerveja.

         A existência do Parque Antarctica está diretamente ligada à fundação da Companhia Antarctica Paulista, ocorrida em 1891 - arrojada iniciativa industrial cujas instalações se localizavam no bairro da água Branca.
        Para que se tenha idéia do que representava esse empreendimento, cumpre lembrar que a indústria cervejeira, de então, se concentrava essencialmente no Velho Mundo. Matéria prima, garrafas, rótulos, máquinas, tudo, enfim, de que necessitava a recém-fundada fábrica, tinha que ser adquirido na Europa. Mas a Companhia Antarctica Paulista, dirigida por homens de escol, cheios de perseverança e de confiança no futuro de São Paulo e do Brasil, venceu todos os impasses, e atravessou diversas fases de crescente progresso, salientando-se a do ano de 1904, quando passou, para o seu acervo, a fábrica de cerveja Bavaria, situada no distrito da Moóca.

    

         Ao lado das suas instalações, na água Branca, a Companhia Antarctica Paulista reservou uma área destinada ao público. Havia, ali, árvores frondosas em grande quantidade, formando áleas, ou então, bosques; Pavilhões rústicos, lembrando a terra de maior difusão da cerveja; lagos artificiais; pistas para esportes; carrossel para as crianças; coretos, onde bandas musicais executavam retretas, aos domingos e feriados; restaurante etc. Tudo havia no Parque Antarctica, para que o logradouro se tornasse, como de fato se tornou, um dos mais concorridos da Capital.

         O Parque Antarctica, tanto pela sua excelente organização, como pelas várias atrações que oferecia, era muito frequentado principalmente aos domingos e feriados, o que chamava a atenção dos viajantes ilustres que por São Paulo passavam. Um dêles, o francês Pierre Denis em seu livro O Brasil no século XX, publicado em 1908, assim se reporta: Aos domingos, uma grande multidão procurava esse jardim público. Outro escritor, Paul Walle, numa das páginas de Au pays de l'or rouge, também se referiu ao Parque Antarctica, elogiando a iniciativa de que resultou a sua criação.
        Um interessante cartaz, litografado e publicado na época, pela Companhia Antarctica Paulista, sob o título PARQUE ANTARCTICA - GRANDE RECREIO PAULISTA,

apresentava sugestivos aspectos do logradouro: a fábrica de cerveja, adjacente; o bosque, para pique-niques; o concorrido bar (reproduzido na gravura acima); o restaurante; os pavilhões rústicos; o stand de tiro ao alvo; o campo de esportes; o lago; o hipódromo mecânico; o parque infantil; o cinematógrafo etc. Oferecendo tais atrativos, o Parque Antarctica, dos primórdios do século XX, ficou indelevelmente marcado na lembrança dos inúmeros paulistanos, que, nas luminosas tardes de domingo, para ali acorreram, à cata de divertimentos sadios e agradáveis.